Cinco anos depois de começar como uma promessa feita em audiência pública, o Programa de Recuperação de Nascentes do Córrego Passo Preto (PRNCPP) chega a 2026 com um balanço consolidado: 26 nascentes mapeadas e em diferentes estágios de recuperação, uma bacia hidrográfica tratada como sistema único e uma rede de parceiros que transformou a forma como Juína cuida da água que bebe.
Os resultados estão reunidos no Relatório Técnico do programa, documento de 112 páginas que apresenta o diagnóstico ambiental da sub-bacia, as metodologias empregadas, as intervenções realizadas e a evolução de cada nascente ao longo do trabalho.
Da expedição ao programa
A história começou em 2021, como desdobramento da Expedição Rio Perdido e de uma audiência pública que reuniu comunidade, produtores rurais, poder público e instituições. Dali nasceu uma articulação inédita no município, envolvendo a Associação Nova Conquista de Juína, o IFMT Campus Juína, a Escola Municipal Paulo Freire, o Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT) e o Instituto Ambiental Rio Perdido (IARP).
O plano inicial previa recuperar 15 nascentes. O trabalho de campo revelou um cenário mais complexo: 26 nascentes identificadas na sub-bacia, muitas delas soterradas por sedimentos, com matas ciliares suprimidas e áreas de preservação ocupadas por pastagens, que respondem por cerca de 74% do território da sub-bacia, enquanto a cobertura florestal remanescente não chega a 2%.
“Plantar água”: a bacia como poupança
Mais do que cercar nascentes, o programa passou a tratar a bacia hidrográfica como um organismo inteiro. Cercamentos, retirada de resíduos, controle de espécies invasoras e revegetação com mudas nativas foram combinados a obras de engenharia de conservação do solo e da água: barraginhas, terraceamento, curvas de nível, estruturas de contenção e sistemas Caxambu.
A lógica é simples de explicar e difícil de executar: reter a chuva onde ela cai. As estruturas diminuem a velocidade das enxurradas, controlam a erosão e forçam a infiltração da água no solo, recarregando o lençol freático e formando o que os técnicos chamam de “poupança hídrica”, uma reserva natural para os meses de estiagem.
Os resultados aparecem no campo. Nascentes que estavam secas voltaram a verter. Afloramentos de água ressurgiram em pontos mais altos do terreno, onde não corriam havia anos. Em uma das áreas, o olho d’água que estava soterrado voltou a fluir dentro da estrutura de proteção construída em 2022, depois que as barraginhas e a revegetação recuperaram a recarga subterrânea.
Testado pela maior crise hídrica da história recente
A estratégia foi colocada à prova em 2023, quando Juína enfrentou sua pior crise hídrica. Sob efeito do El Niño, a vazão dos córregos Passo Preto e Socó-Boi despencou de cerca de 57 milhões de litros por dia para apenas 8 milhões, muito próximo dos 7 milhões de litros diários que a cidade consome. O Socó-Boi praticamente desapareceu.
O episódio reforçou a principal lição do programa: a crise não decorre da falta de chuva, mas da baixa capacidade do território de reter, infiltrar e armazenar a água que cai. Mesmo com a redução dos volumes pluviométricos registrada nos últimos anos pela estação meteorológica do IFMT Campus Juína, a chuva anual sobre a sub-bacia ainda equivale a mais de 12 anos do abastecimento urbano do município. O problema, e a solução, está na gestão do território.
O legado são as pessoas
Se as estruturas garantem a água, são as pessoas que garantem o futuro do trabalho. Ao longo de cinco anos, a bacia do Passo Preto transformou-se em sala de aula a céu aberto, integrando ensino, pesquisa, extensão e educação ambiental. Estudantes, professores, pesquisadores, produtores rurais, servidores públicos e moradores participaram das ações, e técnicos formados na experiência hoje aplicam em outras regiões os conhecimentos construídos em Juína.
A educação ambiental mudou também a relação da população com o território. O Rio Perdido e seus afluentes entraram para o cotidiano das escolas e para a pauta das discussões ambientais do município. Crianças e jovens que antes desconheciam o manancial que abastece suas casas hoje conhecem o Rio Perdido e reconhecem córregos como o Passo Preto pelo nome. A denominação oficial dos afluentes acima da captação municipal, instituída pela Lei Municipal nº 1.998/2022, tornou-se símbolo desse processo de reconhecimento e pertencimento.
Um modelo de articulação institucional
Outro diferencial da experiência foi a prova de que recuperar uma bacia exige atuação conjunta. Ensino e pesquisa, organizações ambientais, Ministério Público, poder público, escolas, produtores e comunidade trabalharam na mesma direção, e o resultado é um modelo próprio de gestão integrada de pequenas bacias hidrográficas, com potencial de replicação em outros municípios.
O trabalho não termina aqui. Algumas nascentes ainda demandam intervenções específicas, e as áreas recuperadas precisam de acompanhamento e manutenção contínuos. Mas, após cinco anos, a compreensão está consolidada: proteger a água que abastece Juína significa cuidar de toda a bacia, integrar instituições e, principalmente, formar pessoas capazes de dar continuidade a esse trabalho.
O Relatório Técnico completo do Programa de Recuperação de Nascentes do Córrego Passo Preto pode ser acessado no link abaixo











